1.8.09


Eram quase doze horas da manhã,e o sol estava a pino. O calor sufocava, mas a sufocava mais do que qualquer um poderia perceber.
Mais do que qualquer um parecia notar.
Apesar do calor, ela estava trancada em seu quarto:o único cômodo da casa em que se mesclava de coisas de adolescente com brinquedos e pelúcias de criança.
Sentada no chão,e neste, estava pousada uma faca grande de cozinha. Os cabelos desarrumados estavam caídos no rosto como uma moldura mal feita num Portinari, ou num Van Gogh.
Olhava a lâmina incrivelmente prateada que reluzia, um brilho semelhante àquele que tinha nos olhos ao segurar o cabo de segurança desta. Primeiro, rasgou parte da tela, o sangue escorrendo de sua bochecha até o queixo.
Provou um pouco da substância vermelha que pingava.Parecia brincar com a dor. Rasgou quase que inocentemente a palma da mão direita. Subia a curva fina que traçava do dedo até o pulso, onde fincou mais ainda os dentes da lâmina, que derramavam manchas vermelhas por todo o piso branco; Cada gota que pingava era semelhante a um sorriso que ela de vez em quando abria no rosto, como uma ferida. Sorria como um esgar de dor. Seu coração pulsava forte, e isso era inegável. Era a primeira coisa proibida que fazia na vida:morrer. Ou brincar de morrer,digamos. A cada batida, seus vasos sangüíneos vomitavam mais e mais sangue. Achava tentadora a dormência nos dedos, no cérebro.
A ardência do corte era quase imperceptível, quase que deliciosa. Deixou seu corpo cair sem amparo no chão, e, uma vez no caída, conseguia apalpar seu entorpecimento. O pulso jorrava sangue no chão cirurgicamente branco, enquanto ela ria debilmente.
Não tinha ninguém em casa;não tinha como alguém socorrê-la. E ela ria, pela primeira vez, de verdade...Nunca ninguém imaginaria que seu suicídio tinha sido tão risonhamente macabro como aquele.

16.7.09

EU QUERO MATÁ-LO ,QUERO ARRANCAR-LHE O CORAÇÃO PELA BOCA, QUERO QUE ELE SE AFOGUE EM SANGUE, QUERO QUE ELE MORRA, MORRA, MORRA!

Ela fechou o caderno com tiras de folhas-trapo destroçadas pela caneta vermelha que ela acabara de tampar.
Levantou os olhos para os olhos de sua querida vítima e cruzou as pernas formalmente.
Quebrou um sorriso e desejou que ele explodisse em mil pedacinhos de papel-marchê.

14.7.09

Hoje eu vim.
Não pra descarregar no teus olhos mais e mais clichês.
Hoje eu vim pra talvez não dizer nada. Esperar que o silêncio fale por mim.
Que meus dedos falem por mim. Que meus olhos, que aquele meu abraço fale por mim.
Ultimamente tenho pensado em morrer. Tenho pensado em matar. Em roubar, roubar alguma coisa pra mim. Ou pra vocês. Qualquer um dos pecados capitais. Mortais. Vitais.
Não importa. Quero emoção, por mais débil que isso seja.
Talvez eu só precise de uma chacina e veias espalhadas no chão pra acalmar meus nervos.

E por favor dona, urgente, exijo minhas férias de verão num manicômio.

13.7.09

Apagaram-se as luzes. Literalmente. E é incrível como ela prefere o escuro coletivo.
Sentiu um vazio corroer-lhe os cantos mais obscuros da alma.
Ela nunca se interessa por alguém e sofre estando sozinha, mas há algo que a prende.


Coisas do seu coração.